Thursday, January 26, 2006

Distinguir forma de conteúdo

Já Koch dizia que a tecnologia "afecta meios e conteúdos” e é capaz de criar um “radical novo jornalismo”. De facto, o suporte digital trouxe alguma libertinagem à circulação de informação na web, mas potenciou o pluralismo e impôs um impreterível rigor na produção jornalística. O acesso às fontes agilizou-se, no sentido de as próprias serem, por si, capazes de disponibilizar informação. Se, de algum modo, este acesso facilitado a qualquer tipo de conteúdos na Internet veio fragilizar o trabalho do jornalista, pois mudemos radicalmente de postura. Reflictamos sobre a quantidade de informação na web e sobre os que se julgam capazes de a produzir, mas não nos sintamos ameaçados na nossa função mediadora privilegiada de “gate-keepers”. A proliferação de informação deve ser capaz de nos fazer sentir, enquanto profissionais de comunicação, responsáveis por refinar o processo de verificação de factos. Perante o excesso de informação nas redes, devemo-nos tornar verdadeiros intérpretes e controladores de qualidade, porque para isso estamos habilitados.

Não confundamos jornalismo com informação. O que de novo prolifera na web veio ocupar um vazio jornalístico alimentado pela facilidade na publicação. De facto, assistimos a um inegável “alargamento do espaço público”, como diz Eduardo Cintra Torres, que contribuiu para “aprofundar a democracia”. Não neguemos, também por isso, o contributo de alguns trabalhos disponíveis na infinidade de blogues alegadamente noticiosos, e deixemos que todos possamos coexistir. O que devemos também recordar é que não surgem cidadãos-jornalistas por geração espontânea, e que o trabalho jornalístico de qualidade não é substituível. Presumir seguir princípios ético-deontológicos não é o mesmo que os cumprir na prática. Da mesma forma, devemo-nos impôr como os únicos trabalhadores pertencentes a empresas jornalísticas que “desempenham um papel integrador, aglutinam uma certa massa crítica, reproduzem uma cultura, uma socialização e práticas”, como lembra Anabela Gradim. Tudo isto, claro está, sem deixar que a pressão da instantaneidade nos tire tempo de investigação ou baixe o nível de controlo editorial. Como Anabela Gradim, também nós devemos rejeitar “o nivelamento por um mínimo denominador comum” ou a produção de “uma classe asséptica, que domine múltiplos talentos, nenhum em profundidade”. Para marcarmos a diferença com o nosso trabalho, e se o que procuramos é o jornalismo de excelência, acautelemo-nos com a qualidade de um jornalista polivalente, "de mochila às costas", e apostemos antes no que somos capazes de fazer melhor.

Com a tecnologia “miniaturizada” e “portátil” à disposição, o comum cidadão que antes só testemunhava, agora presencia, regista e publica. Ainda que a evolução tenha tornado isto possível, não é consequência directa que o “dono” do equipamento informático ganhe, com isso, alguma espécie de estatuto. Os vídeos amadores e os telefonemas que chegam às redacções distinguem-se, exclusivamente, no “suporte do testemunho”, como lembra Cintra torres. Não passam, como diz o jornalista, de “testemunhas circunstanciais” ou “fontes” que “narram o acontecimento acontecendo” e que, de tão factuais, não podem ser negligenciadas. O valor da imagem na comprovação dos acontecimentos é inequívoco e, como os média só têm a ganhar, apelam ao cidadão para que ceda os seus registos.

Porém, como classe profissional especializada no tratamento de informação, os jornalistas devem sentir-se incomodados com a visão apocalíptica de Steve Outing e Dan Gillmor e recusar a apologia de um novo “conceito” que não tem razão para existir. Urge que a classe jornalística e o cidadão comum distingam a forma do conteúdo, porque esse só o jornalista é capaz de produzir.

"Be the first to know"

A cadeia de televisão mais vista em todo o mundo, a CNN (Cable News Network), foi fundada em 1980 por Ted Turner, em Atlanta, nos Estados Unidos. A empresa que pertence à Time Warner, e é hoje presidida por Jonathan Klein, lançou o seu jornal on-line quinze anos depois de estreia em televisão, em Agosto de 1995. A CNN.com é o resultado de um esforço coordenado de troca de informação dentro do grupo e não é, por isso, fácil falar num número exacto de profissionais a trabalhar on-line. O ciberjornal está sob chefia de Susan Grant, vice-presidente do serviço de notícias da CNN, David Payne, manager da CNN.com e Mitch Gelman, vice-presidente e produtor executivo da CNN.com. “Temos à nossa disposição variadíssimos recursos distintos – de jornalistas, editores, produtores a profissionais responsáveis pelos grafismo e tecnologia – para conseguir disponibilizar informação relevante, actualizada ao minuto. Trabalham para o grupo CNN aproximadamente 4000 profissionais espalhados por todo o mundo.”, diz Mitch Gelman em resposta a uma entrevista cedida por correio electrónico. Desde o lançamento do canal televisivo, há quase 25 anos, a empresa alargou o seu alcance a várias cadeias de televisão por cabo e satélite - nacionais, regionais e de língua estrangeira - a duas empresas de radiodifusão e a 12 sítios na Internet, entre os quais: CNN airport network, CNN plus,CNN en Español, CNN sports illustrated, CNN headline news, CNN internacional e CNN Turk.

Em 2001, o aumento da concorrência on-line obrigou a mudanças no design gráfico do ciberjornal. A nova imagem, que os designers foram forçados a adiar em consequência do 11 de Setembro, foi conhecida em Setembro de 2002. A nível da organização de conteúdos disponíveis on-line, de destacar a divisão das secções temáticas em sub-secções constituídas por 40 registos/noticias. “Se dominarmos os interesses da nossa audiência, somos capazes de ser mais assertivos”, lembra Mitch Gelman. A disponibilização de conteúdos noticiosos actuais em vários canais (CNN en Español, CNN plus,…) e categorias diferentes (Mundo, Metereologia, Desporto, entre outros) é possível graças à organização interna do próprio ciberjornal. A cada secção temática é atribuído um produtor, responsável pela selecção, edição e indexação de conteúdos.

O jornal on-line da maior cadeia de televisão americana recebe mais visitas por mês do que qualquer um dos seus mais directos concorrentes. Cerca de 22,4 milhões de visitantes únicos mensais ultrapassam os 3,7 milhões da CBS, os 7,8 milhões da ABC ou as 21 milhões de visitas que o ciberjornal da MSNBC recebe por mês. Ainda assim, a 20 de Maio deste ano, dois dias antes do previsto, a CNN.com passou a disponibilizar um serviço de vídeo grátis (deixou de cobrar os $4,95 por download) com vista a reorganizar a oferta do site para atrair ainda mais visitantes e lucrar com a publicidade. Os patrocinadores iniciais de um serviço que disponibiliza 30 novos vídeos por dia, em 14 categorias, são a Chase e a General Motors.

A CNN.com não passa ao lado da evolução tecnológica que parece estar a criar o cidadão-jornalista e, por isso, durante a passagem do furacão Katrina por território americano, o ciberjornal recebeu vídeos amadores e disponibilizou-os gratuitamente on-line. “Não só temos a capacidade de apresentar o contexto e os detalhes da história, como também damos às pessoas a oportunidade de verem, ouvirem e sentirem”, diz Mitch Gelman, “é isso que torna o jornalismo on-line tão interessante”, lembra. O imediatismo e a actualidade da informação em CNN.com fez com que fossem feitos mais de 9 milhões de downloads de vídeos amadores e com que mais de 7 milhões de visitantes congestionassem o serviço Weather.com.A CNN.com não descura as potencialidades multimédia do suporte digital (o audiovisual, o grafismo, a interactividade), disponibilizando um amplo serviço de correio electrónico/newsletters que pode ser configurado pelo utilizador - newsletters diárias ou semanais, com a selecção das categorias desejadas. O ciberjornal disponibiliza ainda serviços informativos para telemóvel (CNN to go) e um novo serviço grátis de “podcasting feeds” que permite descarregar informação áudio nos i-pods.

Mitch Gelman, produtor executivo da CNN.com, acredita que o ciberjornal se distingue dos media on-line semelhantes pela “qualidade e experiência dos melhores jornalistas (vencedores de prémios nas mais diversas categorias) e pela amplitude com que fazem a cobertura dos acontecimentos”. Gelman acredita que “o talento dos profissionais e os recursos que temos ao nosso dispor dão-nos vantagens na cobertura e distribuição de informação, com uma credibilidade que escapa aos outros ciberjornais”.A CNN.com constou da lista de finalistas dos Online Journalism Awards na categoria de General Excellence in Online Journalism. Quanto ao reconhecimento do trabalho realizado, Mitch Gelman diz que “todos os dias a CNN.com desenvolve um trabalho árduo para disponibilizar informação credível, exacta e em tempo real para o maior número de pessoas possível. Sentimo-nos honrados quando esse esforço é reconhecido pelos nossos parceiros e utilizadores."